Alexandres

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Alexandres, O Grande e os breves

Em 356 a.C. nasceu Alexandre, filho do rei Felipe II e de uma de suas esposas, Olímpia. Alexandre viria a ser conhecido por alguns títulos como: Alexandre III da Macedônia, Alexandre Magno ou Alexandre, o Grande. Mais recentemente este último tem sido muito utilizado como codinome para outro Alexandre, um brasileiro, ainda que tal comparação encontre um ponto de contato, é profundamente injusta… para com o macedônio.

O homem que formou o mais poderoso império de seu tempo, que jamais perdeu uma batalha, que nasceu em berço nobre, foi instruído por ninguém menos que o próprio Aristóteles, que dominou da atual Grécia, passando pelo Egito, a região onde hoje se encontra o Irã, o Afeganistão, Paquistão, Egito e parte da Índia, é a personagem que tem nossa atenção neste artigo. A história de Alexandre se perpetuou por suas características e conquistas: gigantismo, audácia, impetuosidade e brevidade.

Alexandre nasceu na cidade de Pela que era a capital do reino da Macedônia. Felipe, seu pai, era um rei expansionista e aumentou seu reino estendendo seu poder a quase toda a Grécia, exceto Esparta, e conquistando a Trácia mais ao norte. O nascimento de Alexandre foi em si mesmo cercado de mitos. Dizia-se que sua mãe sonhara que um raio atingira seu ventre, de onde surgiu a crença que Alexandre seria filho de Zeus. Curiosamente, no dia de seu nascimento o templo de Artêmis sofreu um incêndio, o que fez espalhar outro mito, o de que a própria deusa havia desguarnecido seu templo para testemunhar o nascimento de Alexandre.

Em razão das muitas guerras de conquista, o rei Felipe não esteve presente ao nascimento de seu segundo filho. Felipe já tinha um filho, que em tese seria o herdeiro do trono macedônio, mas, por apresentar deficiência mental não era considerado apto para governar. Assim, Alexandre foi preparado com uma educação típica para sua época, considerando sua ascendência: leitura, artes da guerra, montaria, caça e música.

Obviamente todo o preparo era consolidado por sua inteligência e bravura inatas, já demonstrada desde muito cedo. Conta-se que próximo de sua adolescência, Alexandre assistia às frustradas tentativas de domar um dos cavalos comprados por seu pai. Era um animal de grande porte, forte e bastante arisco, o que inviabilizava a montaria. Tendo observado as reações do animal, Alexandre pediu a seu pai autorização para tentar montar. Para surpresa de todos, Alexandre posicionou o animal na direção do sol e em seguida montou. Sua perspicácia juvenil permitiu perceber que o animal temia a própria sombra. Assim, ele recebeu de presente o belo animal, a quem chamou Bucéfalo, companheiro de muitas batalhas.

A instrução em ciências naturais e filosofia era algo importante para o herdeiro do trono. O rei Felipe consultou diversos filósofos e sábios, tendo escolhido a Aristóteles. O acordo entre o grande filósofo e o rei, previa a reconstrução da cidade natal de Aristóteles, Estagira, que havia sido devastada sob Felipe. Também sob o acordo, foram libertos os habitantes daquela cidade, escravizados após a conquista. Não apenas o príncipe se beneficiou da sabedoria do filósofo, mas também os jovens filhos da nobreza macedônia também foram incluídos no discipulado de Aristóteles, o que viria se tornar uma sábia decisão. Aqueles jovens uniram-se a Alexandre e, sob seu comando, conquistaram boa parte do mundo conhecido na época. Filosofia, medicina e leituras de textos basilares como a Ilíada e a Odisseia de Homero faziam parte da rotina de estudos daqueles jovens.

Com apenas dezesseis anos, Alexandre foi declarado regente da Macedônia enquanto seu pai partia para mais uma campanha militar. Nesta mesma época uma rebelião ocorreu entre os Medos, o que pôs Alexandre pela primeira vez à frente de um exército. A campanha foi bem-sucedida e confirmou a capacidade do jovem guerreiro. A partir de então, a potência do império macedônio recebeu o reforço de Alexandre, que ao lado de seu pai, expandiu ainda mais o poder da Macedônia.

A chegada de Alexandre à condição de rei se deu entre conflitos, intrigas e traições. Como dito antes, a mãe de Alexandre (Olímpia) era uma das esposas de Felipe II, que tomou para si uma nova esposa chamada Cleópatra Eurídice (não a do Egito). O ponto central desta nova união é que Cleópatra, que era macedônia, poderia gerar um herdeiro integralmente macedônio. Cabe esclarecer que Olímpia não era macedônia e aquele novo nascimento reorganizaria a ordem de sucessão.

Durante a celebração da nova união, um dos convidados insinuou que um herdeiro legítimo nasceria, o que enfureceu Alexandre. Seu pai buscou intervir, mas acabou caindo dado seu estado de embriaguez. Alexandre então zombou de Felipe, questionando como ele poderia marchar pela Ásia se não conseguia sequer trocar de cadeira. A partir daquele evento, Alexandre fugiu da macedônia acompanhado de sua mãe por julgar que a ofensa a seu pai tiraria dele qualquer direito ao império. Meses depois Alexandre retornou a Pela, pouco antes de seu pai ser morto a traição por um de seus guardas. A ascensão de Alexandre ao poder, assim como era comum a outros impérios daquele período, veio acompanhada da eliminação sumária de qualquer oposição ou ameaça ao novo governante. Parentes, a nova esposa de seu pai e seu filho, o convidado que erguera o brinde ao novo herdeiro e todos que de alguma forma pudessem se opor, foram assassinados. Uma exceção foi feita a seu primeiro irmão, que foi poupado e por quem Alexandre demonstrava carinho. Seu irmão, mesmo com suas limitações, era levado a acompanhar as campanhas militares de Alexandre e contava com proteção e cuidados.

Coube a Alexandre sufocar a revoltas que ocorreram enquanto a notícia da morte de seu pai se espalhava. A mais exemplar delas pode ter sido a da cidade de Tebas (Grécia). Naquela cidade Alexandre determinou que a população fosse dizimada e a cidade destruída. Os remanescentes foram vendidos com escravos. A brutalidade daquela campanha fez com que a “pacificação” fosse alcançada.

A partir do assassinato de Felipe II e da ascensão de Alexandre, o expansionismo foi impulsionado. A Macedônia de Alexandre, avançou vencendo batalha após batalha e chegou à Frígia (atual Turquia). Naquela região Alexandre soube do lendário nó Górdio, extremamente complexo, ainda não desfeito e que segundo a lenda, daria o poder sobre a Ásia àquele que o desatasse. Diante do famoso nó e após estudá-lo detalhadamente, Alexandre tomou de sua espada e partiu-o ao meio. Estava “solucionado” o desafio! Quebrando a regra e impondo-se pela força ele deu um sinal claro quanto a quem o desafiasse.

O império Persa de Dario também foi sendo conquistado, mesmo possuindo um número muito superior de homens. Ousadia, audácia, bravura, estratégia? Difícil determinar se alguma dessas qualidades isoladamente ou a soma de todas elas proporcionou a vitória. A campanha Persa foi parcialmente interrompida, alterando o foco para o Egito, que foi conquistado sem maiores dificuldades, visto que o Egito permanecera sob o domínio Persa, e a população local encarou a chegada de Alexandre como uma libertação. Ao que parece a ideia de que “o inimigo de meu inimigo é meu amigo”, parece ter funcionado em favor dos macedônios naquele momento. No Egito, Alexandre foi declarado faraó e era chamado de filho do deus Amon. A cidade de Alexandria foi erguida em honra ao “libertador”, o que viria a se tornar uma de suas marcas: a criação de cidades em sua homenagem, as muitas ‘Alexandrias’ de Alexandre.

Dando continuidade ao seu avanço e consequentes vitórias, Dario foi definitivamente vencido. A cidade de Babilônia, recebeu mensagem de Alexandre indicando que seria poupada da destruição caso se rendesse a seu ímpeto. De fato, as forças de defesa da cidade não ofereceram resistência e Babilônia foi poupada. Persépolis, capital do império Persa foi vencida e saqueada. As regiões onde hoje se encontram o Afeganistão, Paquistão, oeste da Índia, todas caíram sob o império de Alexandre. Particularmente na campanha da Índia, Alexandre perdeu seu estimado cavalo Bucéfalo em batalha contra forças montadas em elefantes. Como forma de homenagem, a cidade de ‘Bucéphala’ foi fundada.

O avanço de Alexandre rumo ao leste aparentemente não seria impedido, senão por um daqueles fatos que mudam os rumos da história. Depois de tantos anos de batalhas vitoriosas, os homens de Alexandre demonstraram cansaço das guerras de conquista, o que levou a uma rebelião, mas sem maiores consequências após a decisão de interromper as campanhas militares e recuar.

Outro ponto a se destacar, e que tem sido usado como uma certa estratégia de propaganda de setores progressistas na atualidade, seria a suposta relação homossexual entre Alexandre e Heféstio (antigo amigo dos tempos de instrução aristotélica). Alega-se que ambos eram amantes e inseparáveis, acrescentando que a morte de Heféstio teria impactado dramaticamente a Alexandre, sugerindo um romance homossexual. De fato, com a morte do grande amigo e parceiro de batalhas, Alexandre não se recuperou. Acreditamos que a pobreza da linguagem para algumas palavras em alguns idiomas, quando comparados ao grego, pode levar a algumas confusões, especialmente quando associados à ausência de conhecimento histórico. O ocidente atualmente conhece a palavra ‘amor’ que abrange uma enormidade de relações, confundindo-as ao entendimento. Entretanto, no idioma grego destacamos três palavras para ‘amor’, se referindo a sentimentos diferentes e bastante específicos. Eros (amor romântico), philia (amor desinteressado e restrito a alguém ou a um grupo) e ágape (amor em sentido amplo – pela humanidade por exemplo). O que se pode afirmar, sem dúvida, é que a relação entre Alexandre e Eféstio era pautada pelo amor ‘philia’, o que passar disso é narrativa.

Em 323 a.C, enquanto se encontrava em Babilônia e organizava mais uma vez seu exército para lutar (novamente) contra revoltas entre os persas, Alexandre teve febre. Tendo sido a sua saúde desafiada ao longo de anos de batalhas, ferimentos, abusos diversos (incluindo o álcool), Alexandre não resistiu e morreu aos 32 anos de idade. Seu corpo preservado em uma urna preenchida com mel, foi transportado em direção à Grécia, porém, durante o trajeto o cortejo foi desviado rumo a Alexandria no Egito, onde permaneceu até algum momento entre os séculos III e IV da era cristã. Desde então, apesar de muitas teorias, não se sabe onde permanece guardado ou se foi perdido definitivamente.

Em seus momentos finais, questionado sobre quem teria a honra de sucedê-lo, supostamente e com grande dificuldade ele teria dito: “Krat’eroi” que significa “ao mais forte” ou; “Kratero” que era um de seus generais. O impasse ante a dúvida foi resolvido e o imenso império conquistado por Alexandre, o Grande, foi dividido entre seus generais.

Do gigantismo, da audácia, da impetuosidade de Alexandre, que esmagou seus adversários utilizando do poder de seu império, que quebrou as regras de honra do nó Górdio, que foi chamado “filho de Zeus”, “filho de Amon”, “Rei do Mundo”, restou apenas a brevidade de sua existência. O ‘helenismo’, a fusão entre a cultura grega e a cultura oriental foi seu legado. O ponto que une os dois ‘Alexandres’, o Grande e o brasileiro, está demonstrado no poder temporal que aos dois foi concedido. O que os distancia é dado na seguinte reflexão: Alexandre o macedônio, mesmo passados mais de dois mil anos de sua morte, ainda é lembrado; quanto ao Alexandre, o brasileiro, que será de sua memória e legado daqui a apenas cinquenta anos?

“Vaidade de vaidades, diz o pregador, vaidade de vaidades! Tudo é vaidade. Que proveito tem o homem, de todo o seu trabalho, que faz debaixo do sol? Uma geração vai, e outra geração vem; mas a terra para sempre permanece”. (Eclesiastes, 1:2-4)

Artigo publicado na Revista Conhecimento & Cidadania Vol. II N.º 28

Sobre o autor

Mauricio Motta

Mauricio Motta - Professor licenciado em História Pós-graduado em História do Brasil e colunista na Revista Conhecimento & Cidadania.

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BIOGRAFIA

Leandro Costa

Servidor público, advogado impedido, professor de Direito, Diretor Acadêmico do projeto Direito nas Escolas e editor-chefe da Revista Conhecimento & Cidadania.

Defensor de uma sociedade rica em valores, acredito que o Brasil despertou e luta para sair da lama vermelha que tentou nos engolir. Sob às bênçãos de Deus defenderemos nossa pátria, família e liberdade, tendo como arma a verdade.

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