Testemunhas atávicas da História

Testemunhas atávicas da História

Houve um tempo em que éramos jovens. Assim como quase todos os jovens, éramos idealistas, às vezes rebeldes, ou um tanto radicais. Aqueles tempos eram intensos, quanto aos sentimentos, desejos, sonhos e aspirações. Para muitos, aqueles tempos deixaram saudades, não exatamente pelo contexto externo – turbulento – mas quem sabe pelas paixões interiores que deixaram marcas e que resistiram ao tempo. Ah, a juventude!

Hoje podemos observar alguns de nossos antigos companheiros de aventuras, ou ainda aqueles que já àquela época tinham mais idade que nós. Observamos também aqueles que só conhecemos na maturidade, mas que também viveram experiências semelhantes naqueles tempos. Alguns se mantiveram fiéis aos antigos ideais e ideologias, outros seguiram julgando todas as coisas e retendo o que fosse bom. Damos neste singelo tributo aos antigos amigos, hoje apartados de nós pelos mesmos motivos que nos uniam, o benefício da amizade. O que queremos dizer com isso?

Falaremos um pouco e de forma certamente muito superficial, sobre os amigos de esquerda, socialistas veteranos, conscientes ou não de sua militância. Geralmente, nas rodas de conversa, costumamos dividir os “esquerdistas” em três tipos muito facilmente identificáveis: aquele que sabe o que o socialismo é e se beneficia de suas injustiças; aquele que pensa que sabe o que o socialismo é e espera se beneficiar dele, achando que luta contra as injustiças do capitalismo; aquele que não faz ideia do que o socialismo é, mas espera de alguma forma se beneficiar, agora ou no futuro. Nossos amigos de esquerda não se enquadram em nenhum dos três modelos. Sabem o que o socialismo é, esperam se beneficiar dele algum dia, enquanto repetem a cantilena de que o socialismo jamais foi aplicado na prática. Mas afinal, se sabem a verdade, o que poderia mantê-los firmes neste propósito por tantos anos?

Edward John Mostyn Bowlby, psicólogo, psiquiatra e psicanalista britânico e Leon Festinger, psicólogo americano, nos auxiliaram a encontrar um caminho para entender este fenômeno. É bom deixar claro que aparentemente encontramos um caminho entre outros tantos possíveis. Nos meados do século XX, emergiram movimentos sociais que desafiaram as estruturas políticas e econômicas estabelecidas. Entre esses movimentos, o socialismo ganhou destaque, atraindo jovens idealistas que buscavam uma sociedade mais justa e igualitária. Sim, normalmente os idealistas têm boas intenções. À luz das teorias de Bowlby sobre o apego e de Festinger sobre motivação cognitiva, podemos compreender por que alguns indivíduos das gerações dos anos 60, 70 e 80 mantêm um vínculo tão forte com os ideais socialistas, mesmo décadas após o seu auge, mesmo após a sua queda, mesmo após a verdade ser desnudada através de mídias como a internet.

A teoria do apego de Bowlby postula que os primeiros anos de vida são cruciais para o desenvolvimento de vínculos emocionais duradouros. Esses vínculos não se limitam apenas às relações interpessoais, mas também se estendem a sistemas de crenças e ideologias. Assim como as crianças usam seus cuidadores como uma “base segura”, as ideologias e visões de mundo estabelecidas na juventude podem servir como uma base psicológica segura na vida adulta. Essas ideologias oferecem segurança e estabilidade emocional, proporcionando um quadro de referência consistente para entender o mundo. Assim, as figuras de apego na infância, como pais e outros cuidadores, têm uma influência significativa na formação das ideologias e visões de mundo. As ideologias e crenças transmitidas tendem a ser internalizadas e mantidas ao longo da vida, devido ao forte apego emocional. Por outro lado, novas ideias ou novas visões de mundo podem gerar ansiedade e medo do desconhecido, levando as pessoas a se apegarem às ideias que lhes sejam familiares para evitar o desconforto causado pela incerteza, assim como proposto por Bowlby.

No contexto das gerações dos anos 60, 70 e 80, muitos jovens foram influenciados por um clima social e político que promovia valores socialistas e de igualdade. Não devemos esquecer que as narrativas de viés esquerdista vêm dominando o cenário midiático há mais de 50 anos e que, para aqueles que nasceram mergulhados em tal cenário, despertar para novos pontos de vista é algo bastante desafiador.

Por outro lado, Festinger propôs a teoria da dissonância cognitiva, que sugere que os indivíduos buscam manter a consistência entre suas crenças e comportamentos. As pessoas têm uma motivação intrínseca para manter suas crenças existentes, mesmo quando confrontadas com informações contraditórias. Portanto, uma vez que as ideologias e visões de mundo são formadas, elas tendem a ser mantidas, independentemente de novas informações que possam surgir. No contexto dos adeptos do socialismo das décadas passadas, permanecer fiel aos ideais socialistas pode servir como uma forma de reduzir a dissonância cognitiva. O apoio contínuo aos partidos de esquerda e líderes socialistas pode ser visto como uma maneira de validar suas antigas crenças e manter a coerência interna.

As pessoas tendem a procurar informações que confirmam suas crenças existentes e ignorar ou descartar informações que as desafiam, o que é normalmente conhecido como “viés de confirmação”. Isso pode levar a uma persistência nas ideologias adquiridas na juventude. Esse viés, combinado com o apego emocional às ideologias, pode resultar na manutenção e reforço contínuo dessas ideologias ao longo da vida adulta. Tão complexo quanto o viés de confirmação, é a tendência a romantizar o passado, que pode levar as pessoas a se apegarem às ideologias e visões de mundo, mesmo que essas ideias não sejam mais adequadas ou relevantes para sua vida atual. Essas teorias oferecem uma compreensão interessante de como as ideologias e visões de mundo se tornam parte integrante da identidade e da psique de uma pessoa, influenciando sua forma de pensar, agir e interagir com o mundo ao seu redor.

Muitos daquelas gerações, continuam a manter um forte apego aos ideais da esquerda, apesar das mudanças sociais e políticas ocorridas desde então. Sob a perspectiva das teorias de Bowlby e Festinger, podemos entender esse fenômeno como resultado de vínculos emocionais formados na juventude, combinados com a motivação para manter a coerência cognitiva e emocional. Enquanto o mundo evolui, o apego às raízes socialistas permanece como um testemunho duradouro do impacto dos aspectos emocionais sobre o comportamento de alguns de nossos amigos.

Nossos amados amigos, por algum motivo, parecem ter fincado raízes numa suposta era de ouro onde “havia um tempo em que eu vivia um sentimento quase infantil. Havia o medo e a timidez, todo um lado que você nunca viu” (…). É como se ao som do RPM, todas as experiências que vieram depois, fossem pautadas por uma ingenuidade e infantilidade. Pelas mesmas viciantes emoções do passado. Ah, o apego… Ah, o atavismo…

Ao finalizar este artigo, fazemos também um mea culpa, mea máxima culpa. Entendemos que em nome da amizade temos observado nossos amigos enquanto sofremos da síndrome de Pollyana, indulgentemente ignorando-lhes qualquer vilania e buscando nós mesmos, em reconhecido apego à nossa história, manter-nos fiéis e apegados aos bons momentos compartilhados. Se estivermos sendo também vítimas do que expuseram as teorias de Bowlby e Festinger, pedimos a vossa indulgência.

É certo que devemos lutar por nossos ideais, defender a justiça e o bem comum, e o Brasil, mas se o preço deste sucesso for a frieza de coração e a solidão dos monumentos, de que terá valido o esforço? O caminho do equilíbrio e do bem senso, aliado à paciência e à indulgência podem trazer bons frutos de amizade, tolerância e fé no futuro.

Adversários são vencidos, inimigos são destruídos. Adversários muitas vezes, inimigos jamais!

Artigo publicado na Revista Conhecimento & Cidadania Vol. III N.º 41

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Sobre o autor

Mauricio Motta

Mauricio Motta - Professor licenciado em História Pós-graduado em História do Brasil e colunista na Revista Conhecimento & Cidadania.

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BIOGRAFIA

Leandro Costa

Servidor público, advogado impedido, professor de Direito, Diretor Acadêmico do projeto Direito nas Escolas e editor-chefe da Revista Conhecimento & Cidadania.

Defensor de uma sociedade rica em valores, acredito que o Brasil despertou e luta para sair da lama vermelha que tentou nos engolir. Sob às bênçãos de Deus defenderemos nossa pátria, família e liberdade, tendo como arma a verdade.

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