“Sonhar não custa nada
E o meu sonho é tão real
Mergulhei nessa magia
Era tudo o que eu queria
Para esse carnaval
Deixe a sua mente vagar
Não custa nada sonhar
Viajar nos braços do infinito
Onde tudo é mais bonito
Nesse mundo de ilusão
Transformar o sonho em realidade
E sonhar com a mocidade
É sonhar com o pé no chão”
No desfile de 1992, o Grêmio Recreativo e Escola de Samba Mocidade Unida de Padre Miguel passava pela Avenida Marquês de Sapucaí exibindo seu samba enredo “sonhar não custa nada”. Uma letra romântica que convidava a plateia a mergulhar no mundo dos sonhos no qual tudo é mais bonito e perfeito, uma ilusão que está ao alcance de todos. A letra da música alegava que sonhar não custava e, em um trecho adiante, chega a afirmar que não se paga para sonhar, entretanto, há uma linguagem lúdica que fala em transformar o sonho em realidade, que, por óbvio, se refere a fazer dos sonhos algo que se pretende alcançar ou tornar um amor dos sonhos como verdadeiro.
A letra não propunha que a realidade fosse perfeita e que, de fato, as pessoas deveriam viver sonhando acordadas, a linguagem não é uma proposta de vida ou de sociedade, mas um convite a deixar os problemas de lado para, ao menos um momento, se entregar ao sonho perfeito, bem como, fazer da realidade um lugar melhor ao se despir das vicissitudes humanas.
A arte é expressão da realidade, ainda que pelos olhos falhos de sues criadores e intérpretes, diante de nossa inegável compreensão divina da existência, livros, músicas, danças, filmes, quadros e todas as expressões artísticas querem dizer algo, mesmo que seja nefasto, pois nem tudo que se exprime é belo e justo, haja vista que, artífices do mal propagam suas agendas como qualquer um.
Convidar os indivíduos para que vivam em um sonho pode ser algo lindo no campo da arte, pois como afirma a letra do samba enredo, ao deixar a mente vagar por um mundo imaginário, é se permitir a viver em um mundo mais bonito, entretanto, tal convite não pode ser uma oferta literal, pois a realidade é inquebrável e não curvar-se-á aos anseios do sonhador.
Quando a ilusão se propõe a aguçar o imaginário ou permitir que o indivíduo se abstraia da realidade em um momento de relaxamento, ou seja, a arte chama aquele que a contempla a uma reflexão sobre hipóteses ou valores, buscando, através da imaginação, antever dramas e tragédias, bem como, realizar uma jornada em busca de amadurecimento, sua intenção é provocar a mente para do destinatário para que olhe na direção daquilo que o artista considera valioso.
Resta evidente que alguém de caráter produzirá algo diretamente oposto àqueles com deformidades morais, bem como, um degenerado introduzirá uma mensagem pútrida em suas obras. Não é obra do acaso que, cada vez mais, indivíduos degradados, que ascenderam nos ramos das artes, não por mérito, mas por convenção dos que controlam os meios, constroem obras desprovidas de virtudes ou reflexões dignas, ao passo que corroem as que outrora continham mensagens em seu corpo.
Um bom exemplo de obra literária que nos leva a um universo hipotético e, por conseguinte, ao vislumbre de uma ameaça autoritária é o livro 1984, de George Orwell, que, em sua realidade alternativa, permite que o leitor contemple a hipótese de um sistema autoritário sem se colocar em risco real. O autor convida aquele que se depara com a obra a experimentar, não um sonho, mas um pesadelo totalitário para alertá-lo sobre o risco iminente assumido quando se dá mais poder a qualquer regime, uma advertência que parece ter sido abertamente ignorada por muitos.
O próprio Reino Unido, que outrora controlava a terra natal do autor, sofre as consequências por ter conferido excessivos poderes aos seus governantes, transformando o pesadelo orwelliano cada vez mais em uma triste realidade. Inúmeras são as obras que, como o livro de Orwell, nos levam a hipóteses que nos alertam quanto ao dever de espiar o mal e dele se proteger. Filmes como Matrix, Exterminador do Futuro e até o carismático Wall-e, entre outros, podem ser mencionados.
Por outro prisma, a Odisseia, obra de Homero, não tem como objetivo levar o leitor a uma realidade alternativa em que algo deve ser observado, uma vez que, o convite feito pelo autor da obra é para que acompanhemos a jornada do herói Ulisses, ou Odisseu, em seu retorno da Guerra de Tróia para seu reino em Itaca, expondo uma narrativa de superação e virtudes. O herói enfrenta diversos obstáculos, mas não desiste de voltar a sua terra e sua amada Penélope, servindo como um exemplo inspirador, não como um mal que deva ser evitado. As coleções O Senhor dos Anéis e as Crônicas de Nárnia, também apresentam protagonistas virtuosos que inspiram seus leitores, mesmo aqueles que, em determinado momento apresentavam fraqueza moral, como Edmundo e Eustáquio, amadurecem e se tornam heroicos durante suas respectivas jornadas.
A Divina Comédia, de Dante Alighieri, expõe o risco para aqueles que abraçam os seus vícios e decaem em desgraça eterna, um alerta contra o mel que consome o indivíduo, não contra uma força externa que o coage. Não são raros, na literatura, que o autor nos leve a refletir acerca do mal que nos habita ou que pode germinar em nossos corações, de maneira que, a finalidade é nos alertar para a corrupção inerente aos desejos humanos.
As jornadas destrutivas levam o indivíduo ao caos e, dependendo da vontade do autor, ao seu final, restará a ruína ou a chance de redenção. A queda de uma figura em uma obra de arte serve para que aquele que a contempla possa ver com pessoas se destroem e não seguir pelo mesmo caminho, bem como, a redenção, nos mostra como a esperança não nos abandona quando guardamos a fé e que atos podem redimir homens que se julgavam condenados.
No filme O Poderoso Chefão (The Godfather), Michael Corleone se arruína conforme se torna poderoso, se tornando cada vez menos humano e eliminando quem quer que cruze sua trajetória, o chefe da máfia acaba morrendo sozinho, se recordando de um amor que teve quando em terras italianas, além de ter enterrado a própria filha, vitima de um disparo direcionado ao protagonista. Michael se torna um verdadeiro senhor da máfia, mas tem o sangue de sua amada filha escorrendo em seus braços como castigo por todo o mal que causara. O poderoso Dom acaba sendo destruído por sua natureza e pagando um alto preço pelo poder que conquistara. O icônico vilão Anakin Skywalker, mais conhecido como Darth Vader, teve sua trajetória descendente contada na trilogia da saga Guerra nas Estralas (Star Wars), compreendida entre os episódios um a três, que não foi lançada como parte inicial. Anakin é corrompido, não por ambicionar o poder por si, mas por deixar que seus sentimentos aflorassem de forma descontrolada, vingando excessivamente a morte de sua mãe e buscando o poder para que sua amada pudesse vencer a inevitável morte.
Em sua tentativa de resistir à perda, que na verdade seria dobrar a realidade ao seu desejo, Anakin se associa ao chanceler que posteriormente se revelaria como uma figura maligna e assumiria o posto de imperador. Sucumbindo ao mal, Anakin se transforma de tal forma que é rebatizado como Darth Vader, simbolizando o rompimento em relação a sua antiga natureza.
Darth Vader, que perdeu membros durante uma batalha contra seu antigo mentor, não apenas fisicamente, se torna menos humano, incutindo o terror tão somente com sua presença. O temido discípulo do Imperador não se importa em ceifar qualquer vida em seu caminho, mesmo um planeta pode ser dizimado para satisfazer os planos do Império. Contudo, ao tentar corromper seu filho Luke Skywalker para o lado sombrio da força, Darth Vader acaba reavivando o Anakin que dentro dele habitava, alcançando, na segunda trilogia da saga, sua redenção. Uma vez que, recusando-se a matar o próprio filho, Anakin se volta contra o Imperador, que simboliza enfrentar o mal, e o destrói.
Luke Skywalker, virtuoso como deve ser um herói tão grande que é capaz de redimir um dos mais frios tiranos, se volta para Anakin derrotado, o chama de pai e afirma que o salvará, quando Anakin, que venceu o Imperador e, principalmente, Darth Vader, encara o filho e afirma que Luke já tinha o salvo. Anakin venceu a besta sem alma que vestia uma longa e temida capa preta, um monstro que o consumia e, graças a seu filho, Anakin estava salvo. A arte também pode ter uma finalidade mais simples, a mera distração, que nos leva a desfrutar de momentos sem profundidade ou grandes ensinamentos, criando um estado de leveza no qual as preocupações, ainda que momentaneamente, se dissipam como o ar, efeito que carinhosamente chamamos de “desligar o cérebro”. O melhor exemplo entre filmes são aquelas comédias despretensiosas que não querem tratar de temas complexos ou mensagens sócio-políticas, simplesmente nos querem fazer rir.
As obras que nada fazem além de trazer alegria têm seu valor quando o homem, sendo um ser racional, precisa mergulhar em sonhos belos que não dependem de explicação, que o fazem se sentir bem mesmo sem maior complexidade e sem nenhum interesse, para que sua exposição e desgaste sejam atenuados.
Por outro lado, não há como negar que existe a arte danosa, aquela que, degrada , tem como única finalidade fazer com que seu destinatário consuma algo que não o faria sem um incentivo ou simplesmente corrompe. A degradação está presente quando a arte subverte valores, quando inverte a posição de virtudes e vícios, transformando aquilo que é verdadeiro em relativo e incutindo mensagens distorcidas que o autor acreditando, ou não, deseja que seus destinatários assimilem. A apresentação de figuras criminosas como exemplares, de ações criminosas como justificáveis e de posturas injustas como aceitáveis, sem um contraponto digno, excetuando os casos nos quais a obra se presta a um retrato frio de situações cotidianas, são usadas para convencer o público que o mal não existe ou que pode e deve ser tolerado.
As inserções de personagem que espelham visões distorcidas de determinados grupos, rotulado todo vilão com as mesmas características, ao passo que negam quaisquer defeitos quando se tratam de membros de suas facções, criaram arquétipos bizarros como os da família tradicional que sempre esconde um segredo maligno e do homossexual que não pode ter defeitos. Não por acaso, um dos integrantes do elenco do filme O Silêncio dos Inocentes (The Silence of the Lambs) se desculpou por ter interpretado um vilão com características transformistas, pois aquela figura poderia causar uma má impressão em relação às pessoas da comunidade trans. O ator que deu vida ao vilão Búfalo Bill, Ted Levine, pediu desculpas por entender que a figura que interpretara no filme poderia reforçar o preconceito com pessoas da comunidade trans, algo que nos leva dois questionamentos simples, pois seria reforçar estereótipos interpretar homens brancos como tiranos, ou mesmo, ao ignorar que há psicopatas em quaisquer grupos, uma forma de desumanizar os membros da comunidade trans, uma vez que se nega que tenham falhas humanas?
O ator praticamente afirma que a maldade não deveria estar ligada diretamente a um grupo, mas não leva em consideração que ao, deliberadamente, subtraí-la de tal grupo, estaria fazendo com que tais pessoas fossem menos humanas. Na prática, em demonstração de submissão a grupos ideológicos e suas pautas, o ator faz parecer, de forma totalmente hipócrita, que os membros de uma determinada minoria são inalcançados pelo mal, ou seja, são totalmente feitos de virtudes, esquecendo que há relatos de ataques a inocentes perpetrados por integrantes de tal minoria, ou seja, Búfalo Bill seria uma figura factual e, talvez, até subnotificada.
Atualmente, devido a forte inclinação dos que controlam tal meio, as grandes produções artísticas tem se enviesado de mensagens que adulam déspotas ou incentivam a degradação moral, algumas obras tentam transformar a arte em mera exposição de uma pauta política sem a menor sutileza e, vergonhosamente, fingindo esconder sua clara intenção. Não são raros os momentos em que artistas negam servir uma agenda, ou negam sua existência, para, descaradamente, erguer o estandarte da mesma ideologia que a move.
Em algumas apresentações, os autores simplesmente abandonam qualquer tentativa de contar algo para propagandear sua agenda política, como o caso do desfile do Grêmio Recreativo e Escola de Samba Acadêmicos de Niterói, que trinta e quatro anos passados do desfile que dizia que “não se paga para sonhar”, trouxe um enredo que deixou qualquer tentativa de arte ou sutileza dentro de alguma lata fechada e apresentou na mesma Avenida Marquês de Sapucaí um desfile que se resumiu à uma propaganda política de um espectro politico e uma frustrada tentativa de escarnecer aqueles que não se entregaram a degradação moral e decidiram guardar sua fé e constituir família.
A patética apresentação da agremiação, que pretendia parecer um deleite para os mais alucinados integrantes do espectro revolucionário, acabou revelando o asco que os degenerados, também chamados de lumpemproletários, sentem daqueles que não sucumbiram ao seu estilo doentio de vida. O desfile realizado em meio a um dos maiores eventos do mundo, em meio à capital fluminense e exposto para o mundo, se tornou uma forma de bajulação vergonhosa e de ofensas gratuitas aos que não comungam da ideologia nefasta da pouco conhecida escola de samba niteroiense.
A máscara da esquerda foi retirada em meio ao Sambódromo do Rio de Janeiro, um palco construído pelo nada saudoso esquerdista Leonel de Moura Brizola quando governante. Sem o menor pudor, o desfile deixou evidente o quão a esquerda odeia a família tradicional e o cristianismo, dois obstáculos que precisam ser destruídos em sua trajetória ao poder, em que pese tal intenção seja negada para que não haja uma reação.
Assim como negaram a existência do Foro de São Paulo e negam a agenda “woke” (que trataremos com mais detalhes no futuro próximo), os revolucionários tendem a negar suas reais intenções, pois, sabendo que são abjetas e causam repulsa à maioria, precisam avançar pelas sombras até que seja tarde demais para pará-las. O desfile da Acadêmicos de Niterói, que não tinha a menor pretensão de vencer o evento e, talvez, não se importe com o rebaixamento, pois sua única finalidade era fazer proselitismo político em um ano eleitoral de grande importância, foi a exposição do monstro sem sua bela máscara, uma vez que, a besta acredita que seu sonho já se tornou realidade e não precisa mais mentir para conseguir aquilo que deseja ou, em um estado de decadência moral avançado, não consegue mais disfarçar sua natureza ímpia.
Assim como a produção de filme com o único intuito de atacar Donald Trump ou a séria de super-heróis que buscou ligar seu principal vilão ao político republicano, mas acabou fazendo com que as pessoas se divertissem com a patética tentativa, não podemos nos esquecer do caso em que o jogo de videogame Fortnite, que chegou a criar um ambiente para enaltecer a candidata Kamala Harris, desarmando personagens em um jogo de combate armado, o que gerou, ironicamente, “um tiro no pé”, o desfile pode ter o efeito contrário, não por ser interpretado de forma errada, mas por expor a verdadeira face da esquerda revolucionária e seu escondido ódio aos que chama, corretamente, de cidadãos de bem. Outro ponto interessante foi a presença do Prefeito do Rio de Janeiro, e aliado do homenageado ou do filho da homenageada, como a agremiação preferiu dizer após o desastre, uma vez que o Chefe do Executivo carioca foi flagrantemente apoiado por líderes evangélicos durante o pleito no qual fora reeleito, mas não se fez de rogado em participar do flagrante vilipêndio à crença que tais pastores deveriam defender, afinal, dizem que a professam, em que pese, a associação entre cristãos e os revolucionários deveria ser inimaginável.
A exposição da face real dos revolucionários em meio ao público na Avenida Marquês de Sapucaí durante o carnaval carioca pode ter causado choque a alguns, mas deveria ser um alerta, que a arte nos dá, para que evitemos que os seres reais, aqueles que fizeram que o desfile ocorresse e, principalmente, os que ali eram adulados, não aumentem seu poder a um ponto que possam colocar em prática suas verdadeiras intenções e tentem destruir aqueles que odeiam e representaram como as figuras abjetas enlatadas.
Enquanto tentamos abrir os olhos dos incautos para que o mal, que sequer faz questão de se esconder, não devore a todos, o poder impõe ainda mais miséria em forma de expropriação. Ainda podemos sonhar, pois, apesar de terem se passado mais de três décadas, como cantado naquela mesma avenida, “sonhar não custa nada”, ao menos até que criem uma taxa para o nosso sonho.
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Artigo publicado na Revista Conhecimento & Cidadania Vol. V N.º 63 edição de Fevereiro de 2026 – ISSN 2764-3867