A Copa do Mundo de futebol se aproxima, portanto, nada mais justo que começar tratando de um esporte que envolve tanta paixão, em que torcedores se conectam ou se rivalizam sob os bandeiras de suas nações e escudos de seus clubes, usando as cores estampadas em suas camisas como marcadores de suas tribos. Não nos dobraremos à barbárie das falanges doentias que transformam o esporte em um espetáculo doentio de agressões, de maneira que, ignoraremos as facções denominadas torcidas organizadas por não serem o objeto de reflexão no momento e pelo desprezo moral que merecem.
Uma nação que se destaca em campo é, sem dúvida alguma, a Alemanha, sua seleção tetracampeã mundial, tendo erguido a taça três vezes antes da unificação do país e a última na década passada. A Alemanha se sagrou vencedora da competição pela última vez no Estádio Jornalista Mário Filho, mais conhecido como Maracanã, nome do bairro que abriga o anfiteatro, vencendo a seleção da Argentina, coincidentemente, repetindo o confronto de seu título anterior.
O Maracanã, construído para receber a Copa do Mundo de 1950, foi palco, naquele evento, da conquista uruguaia sobre a seleção brasileira, mas foi a Alemanha quem, sessenta e quatro anos depois, privara o Brasil de retornar ao palco da segunda final da Copa do Mundo em seu território, derrotando a seleção canarinho na capital mineira no jogo anterior, o traumático sete a um, em que a aspirante ao quarto título arrasou a nação que se orgulha de seus inigualáveis cinco campeonatos em suas terras.
Em um momento que o Brasil se via corroído pela corrupção e os templos erguidos para o evento, muitos deles sem qualquer justificativa, eram símbolos evidentes de tão corrosão, a derrota significava mais que apenas uma acachapante humilhação, mas a frustração daqueles que esperavam uma alegria que, de alguma forma, aplacasse em suas mentes fúteis a dor da expropriação. Não bastasse os abusos perpetrados pelos detentores do poder e a flagrante malversação dos recursos, o orgasmo prometido não veio e aquilo que para muitos era um investimento cujo único resultado seria um momento de prazer, tornou-se uma derrota cara e humilhante.
Se aquela Copa do Mundo trouxe alguma felicidade a alguns brasileiros, provavelmente foram os amigos dos poderosos que se banquetearam em obras faraônicas, propagandas, direitos de transmissão e camarotes suntuosos. Ao povo restou o trauma da derrota e o “direito” de pagar pela conta de uma fez que lhe foi importa.
Voltando à Alemanha, não há como tratar da Copa do Mundo no Brasil sem mencionar a torpeza dos que estavam no controle durante aquele episódio, em especial por ainda darem as cartas, a seleção do país europeu cumpriu seu papel e, desfilando com um segundo uniforme que fazia alusão ao clube de maior torcida no país anfitrião, conquistou a simpatia do povo até o momento que atropelou a seleção brasileira. Ao final, a Alemanha vencera a seleção argentina e se sagrou tetracampeã mundial.
O merecido título não se configura obra do acaso, posto que, tal país tem uma tradição no mundo do futebol, ostentando, junto à Itália, a segunda maior coleção de conquistas de mundial, atrás somente do Brasil. Não é difícil deduzir que há uma base que sustente o futebol alemão, logo, cabe avaliar se há, naquele país, um campeonato nacional ou clubes competitivos, algo que, para aqueles que acompanham, ainda que à distância tal esporte, leva a conclusão óbvia que, de fato, o campeonato alemão é consideravelmente estruturado e que existem clubes que são competitivos naquele país, podendo ser rivais difíceis e, até mesmo, temidos em um cenário internacional.
Alguns leitores já imaginaram como exemplo o tradicional e competitivo Bayern de Munique (Bayern Müchen), um clube da capital da Baviera, fundado em 1900, carregando o nome de sua região e cidade respectivamente. O gigante de vermelho é considerado como a maior referência do futebol alemão, o franco favorito dentro de suas fronteiras e um respeitado adversário de respeito para qualquer outro grande clube de futebol em qualquer lugar do globo.
Mas a história do clube bávaro não é tão simples quanto parece, pois o Bayern de Munique vivenciaria um dos episódios mais marcantes de seu país e do mundo, uma vez que, fundado no último ano do século XIX, passaria pela ascensão e queda do regime nazista. Quando o nacional-socialismo chegou ao poder, diferentemente da maioria dos clubes, o Bayern de Munique não se alinhou ao regime, posto que, possuía forte liderança judaica e tinha como Presidente o judeu Kurt Landauer, que renunciou em 1933.
O próprio Adolf Hitler se referia ao Bayern como um clube de judeus (judenklub) e, obviamente, o regime nazista marginalizou o clube, reduzindo até seus recursos e impondo o uso da suástica em seu uniforme. O Bayern de Munique, que havia conquistado seu primeiro título nacional em 1932, só voltaria a erguer a taça da Bundesliga (campeonato alemão) em 1969, evidenciando o quão nocivo o regime do Terceiro Reich fora para o clube, sendo necessários vinte e quatro anos para sua total recuperação e triunfo.
O Bayern de Munique se opôs ao regime autoritário que controlou a Alemanha e, apesar de perseguições, sobreviveu, superando o período do nazismo e seguindo em frente, sendo atualmente considerado o maior clube de futebol alemão. Não há como ignorar a história de superação do Bayern de Munique que, confrontou o regime revolucionário e preferiu a marginalização à submissão. Por outro lado, não podemos ignorar as quase quatro décadas que afastaram o clube do título do campeonato alemão, destacando que enfrentar o mal pode ser pesaroso e um exercício de paciência.
Regimes totalitários tendem a usar subterfúgios para perseguir aqueles que se opõem ou, simplesmente, se negam a alimentá-lo, ao passo que agraciam seus aliados como forma de corromper ou compensar pelos préstimos. Assim como aqueles que se regozijavam nos camarotes do mundial de 2014, os parceiros Terceiro Reich gozavam de benefícios em troca de sua colaboração e vassalagem, tornando-se privilegiados desde que associados e subservientes ao regime autoritário.
Com o fim de impor seu totalitarismo sobre os cidadãos, regimes autoritários tendem a cooptar apoio e perseguir qualquer um que não se curve a suas intenções. Além do objetivo imediato, que é destruir que se oponha, o regime busca intimidar quaisquer outros que cogitem não seguir sua cartinha, portanto, a perseguição deve ocorrer de forma explícita, para que exerça um efeito pedagógico intimidador aos que, mesmo inconformados, observem os açoites covardes sem que tenham forças para reagir.
O nacional-socialismo parece ter compreendido que a centralização da atividade econômica seria um erro, tendo em vista ser o planejamento central incapaz de cuidar de todas as demandas econômicas e procurar brechas para o desenvolvimento. O indivíduo procura ascender atendendo a um anseio, oferecendo algo que não estava antes disponível ou em melhores condições. A concorrência faz com que a economia seja viva e a necessidade é o motor da invenção.
O Estado é incapaz de preencher as lacunas e antever os anseios, algo que o socialista mais ferrenho negará até a última instância. O regime nazista, percebendo tal falha, preferiu se associar à iniciativa privada, permitindo certa liberdade econômica, desde que o empreendedor fosse um aliado do regime.
A União das Repúblicas Socialistas Soviéticas resistiu a ideia de descentralização, para muitos, tal erro resultou no Holodomor. Creio ser injusto tratar como erro, quando a fome parece um método de coerção.
A China, que também experimentou grande miséria, adotou o sistema metacapitalista, no qual as instituições privadas gozem de certa liberdade, mas precisam servir aos interesses do regime. Não por acaso, um dos maiores empresários daquele país, após um inusitado desaparecimento, voltou a público sem disposição para desafiar o governo chinês.
A política de campeãs nacionais segue os mesmos padrões chinês, bem como, do regime nazista. Incentivando os amigos do governo, causando um desequilíbrio na economia que só será percebido após anos, posto que, sendo aliadas do regime, as campeãs nacionais tendem aos abusos face a concorrência e, em um segundo momento, contra consumidores e fornecedores.
Por outro prisma, aquele que se opuser ao regime ou for obstáculo para sua parceira, correrá o risco de forte retaliações.
Não por acaso as punições de natureza política tendem a ser mais degradantes e duradouras que as reservadas à condutas consideradas abjetas pela sociedade, mantendo manifestantes que sequer tinham meios para derrubar um regime autoritário em cárcere por período análogo aos aplicados a crimes realmente nefastos, além da especial preocupação para que não gozem de benefícios deferidos a verdadeiros facínoras.
Imaginemos a hipótese em que um ex-deputado, em uma ditadura socialista, preso por opinião tivesse de cumprir o regime semiaberto da pena a ele, absurdamente, aplicada em um local conforme o descrito em lei, todavia, em diversos casos criminosos violentos ou integrantes de organizações que cumprem tal regime, naquele mesmo país hipotético, o fazem em quase liberdade. Não podemos ignorar que, para tal inimigo do regime, mesmo medidas constitucionais como a graça concedida pela autoridade competente poderia ser ignorada, tão somente para que tal parlamentar sirva de exemplo aos demais congressistas e cidadãos.
Não tendo um exemplo real, decidi chamar o deputado hipotético pela alcunha de Daniel, referindo-me ao personagem bíblico que esteve aprisionado na cova dos leões, uma mera alusão sem qualquer relação com a realidade.
Daniel, no exemplo hipotético, teria expressado sua revolta contra uma decisão de um conselho que parecia proteger organizações criminosas que ceifavam vidas de inocentes e de policiais, em razão da morte de um agente de segurança. As afirmações de Daniel resultariam em uma ação persecutória por parte de um regime que não admite ser questionado, em que pese a decisão, a qual Daniel fazia uma dura critica, pudesse parecer que o conselho protegia os criminosos dos mais perigosos.
Ao final, o fictício parlamentar Daniel ficaria preso e a ditadura socialista lutando para que outra nação não combata os criminosos outrora protegidos pela decisão, mesmo sendo afetada pelas ações dos infratores. No exemplo hipotético Daniel seria reconhecido por ter alertado quanto ao erro e seus algozes se desculparia, ou, recompensado por sua coragem e os tiranos que o encarceraram punidos de forma exemplar.
Um regime tirano não tolera quaisquer resistências, perseguindo e punindo aquele que considera como opositor, como os nazistas fizeram com o Bayern de Munique e nossa nação fictícia com Daniel. Os abusos não conhecem limites, posto que, o autoritarismo se agrava como autopreservação, tendo em mente que tiranos tornar-se-ão cada vez mais tiranos para que não sofram as consequências de seus atos. Um vilão precisa morrer no poder ou pagar pelo mal que causara aos outros.
De um fabricante de material de limpeza aos que doaram para opositores, passando por jornalistas e varejistas, o regime não verá com bons olhos qualquer um que não lhe jure vassalagem e usara de meios escusos para atacá-los, logo, no imaginário dos tiranos, os demais curvar-se-ão à sua autoridade, entrementes, a essência dos vilões é ignorar que a natureza humana fará com que alguns se tornem ainda mais resistentes, surgindo mártires que sacrificar-se-ão pelos outros, como o hipotético parlamentar Daniel, ou mesmo, os que enfrentarão o regime pacientemente, como fizera o Bayren de Munique.
Ao final, os que se sujeitaram aos desmandos dos tiranos terão de prestar contas e assumir que estavam errados ou foram fracos demais para resistir. Ao passo que, a aqueles que conservaram sua honra caberá reconstruir sobre os escombros deixados pelos malfeitores e seguir em frente, como fizera o clube bávaro e, caso nossa hipótese fosse real, o deputado Daniel.
Aos amigos do regime, que se banquetearam diante da desgraça alheia, sejam eles grandes produtores de alimentos e fármacos, instituições financeiras, empresas de mídia ou criminosos, que sejam responsabilizados por suas ações junto aos tiranos que tanto serviram.
Que a tocante história do Bayern de Munique, que é de tantos outros que sobrevivem apesar da perseguição sirva de inspiração aos que conservam sua dignidade e não se deixarão dobrar pela força dos tiranos, tampouco se corromper por agrados ou pela embriaguez do poder na doentia festa dos guardanapos patrocinada pelas vítimas do regime.
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Artigo publicado na Revista Conhecimento & Cidadania Vol. V N.º 66 edição de Maio de 2026 – ISSN 2764-3867