A Bíblia Sagrada nos conta dos dias em que duas prostitutas bateram às portas do Rei Salomão. Havia um litígio que só a autoridade real poderia dirimir, posto que, ambas se declaravam como legítima mãe de uma criança.
Foi dito ao Rei que as duas mulheres moravam na mesma casa e que, em dois dias de diferença, ambas deram a luz, mas que uma delas, dormindo, acabou sufocando seu filho e o bebê morreu, tendo se apoderado do filho da outra mulher. Salomão não tinha como saber quem era a verdadeira mãe da criança e ambas insistiram que o bebê que falecera era a prole de sua contendora.
O sábio Rei percebeu que aquela que estava mentido não recuaria, haja vista que, subtraindo o filho pela perda, precisava suprimir a falta daquele que, por sua falta, perecera. A mulher fugia do luto e tomar o filho da outra era uma forma de esquivar-se do sofrimento de perda, assumiria que seu filho era aquele que ali estava, portanto, enganaria sua consciência com o fim de evitar a dor.
Salomão então disse às mulheres que, como era impossível descobrir quem, realmente, era a mãe da criança, cortaria o bebê ao meio e entregaria a metade a cada uma delas, assim, daria ao menos parte à verdadeira mãe, seria, portanto, o mais perto de algo verdadeiramente justo. A mão da criança morta, cega por seu desejo de ficar, ao menos, com parte do objeto da lide, aceitou a proposta do Rei, mas a verdadeira mãe, ao ver que lhe restaria metade de um cadáver e que seu filho, mesmo nos braços de outra, ficaria vivo se ela se abrisse mão da criança, voltou-se ao julgador, pediu que não o matasse e pediu que a entregasse à impostora.
O Rei determinou que não cortassem a criança e a entregasse à mulher que preferiu vê-la viva nos braços da impostora, dizendo que aquela era a verdadeira mãe da criança. Em sua sabedoria, Salomão testou o coração das duas contendoras e aquela que preferiu salvar a vida da criança se provou como a que ama verdadeiramente o bebê.
A decisão de cortar a criança e, consequentemente, matá-la partiu do Rei Salomão, logo, se levada a cabo pela inércia de ambas as mulheres, deveríamos admitir que a culpa pelo assassinato recairia sobre os ombros do julgador, não sobre a impostora ou a mãe, tendo em vista que o objetivo de ambas era ter a criança em seus braços, de maneira que, somente Salomão, em uma análise superficial, suportaria o peso da morte daquele inocente.
Por outro lado, a mãe verdadeira, ao abrir mão do filho em favor da impostora, não estava satisfazendo seu desejo ou sendo justa, mas salvando a vida de seu amado que, mesmo entregue a alguém de índole reprovável, não seria privado do presente divino que é a vida. A melhor opção para a mãe seria ficar com o filho, mas ela sabia que deixar o Rei matar sua prole seria a desgraça total, por isso, preferiu a escolha menos gravosa.
A impostora, mais preocupada com a disputa em si e sabendo que a divisão já lhe era mais que a verdadeira justiça, concordou com a proposição do sábio Rei, haja vista que, para quem nada tinha, o empate parecia um bom resultado. No entanto, não se pode afastar a hipótese na qual a impostora aceitaria a morte daquele inocente por um motivo ainda mais nefasto, a possibilidade de impor o sofrimento de perda que espiava à outra mulher, invejando o fato daquela não ter perdido o filho.
Se a inveja foi a causa motora para que a impostora aceitasse a morte do filho alheio, sua baixeza moral restaria evidente, entretanto, no que concerne ao assassinato, bastaria, como mencionado, assumir que o Rei prolatara a decisão, portanto, seria o julgador o assassino.
Ao preferir entregar o filho, a verdadeira mãe escolheu aquilo que se chama de mal menor, ou seja, deixando sua vontade de lado para salvar aquilo que era mais importante, ela provou que verdadeiramente se importava e que não estava disposta a causar a morte do próprio filho por orgulho ou acreditar que estava sendo firme em sua convicção.
A fraqueza moral não está na escolha pelo mal menor, ou “menos pior”, mas a omissão como argumento de não culpabilidade pela desgraça que dela também decorre. Aquele que se esquiva da responsabilidade pode não ser o culpado pelo mal na mesma medida que os que abraçaram a degradação, todavia, não pode repousar como se não tivessem colaborado para um resultado nefasto.
Esquivar-se de decidir é, na verdade, renunciar seu voto em favor de terceiro com o fim de transferir a outrem o peso da culpa, entretanto, quando as consequências não são evitadas em razão da omissão, não há como negar que aquele que se furtou deve suportar o fardo da escolha que preferiu não fazer. Aquele que diz não se importar com aquilo que será feito, não pode, se for honesto, alegar que se opunha.
Em nosso arcabouço legal existe uma ação judicial que permite ao cidadão se levantar contra ato que cause prejuízo ao erário, ao meio ambiente e ao patrimônio histórico, denominada Ação Popular, entretanto, é requisito que o autor tenha comparecido ao pleito eleitoral para que possa ajuizá-la, algo que evidencia a impossibilidade do omisso de se rechaçar um ato que cause prejuízo ao interesse público.
É verdade que aquele que anula seu voto ou escolheu o autor do ato que visa combater poderá mover a ação, haja vista que o sigilo do voto deve ser resguardado, logo, seria impossível requerer a informação de qual destino o voto do autor da ação teve, entrementes, evidencia-se que, ao não escolher de forma flagrante, o cidadão deixou que outros guiassem seu destino e deve suportar tal posicionamento e suas consequências.
A postura covarde de uma União Europeia que assistiu a ação do grupo terrorista Hamas no fatídico outubro de 2023, e não esboçou qualquer reação, além de indigna, lhe priva de condenar Israel quando aquela nação reage e persegue membros do grupo terrorista em questão. Não há muito a ser esperado quando a mesma Europa doa milhões para que a Ucrânia, defendendo suas terras, tenha misseis, drones e carne de mercenários para usar contra a Rússia, ao passo que continua comprando gás da autocracia de Moscou para não suportar o frio ou não renunciar suas politicas ambientalistas fajutas.
Se a verdadeira mão fosse como os governos de Alemanha e França, aquele bebê seria cortado pelo Rei Salomão. Observando bem, a linha progressista que a maior parte da União Europeia se filiou tem a tendência a matar bebês.
O atual Governo de El Salvador recebe duras críticas, algumas até válidas, de autoridades e ativistas que se autodenominam defensores dos direitos humanos, no entanto, as diversas organizações criminosas de cunho revolucionário que atuam na América Latina com a condescendência dos membros do Foro de São Paulo, não parece incomodar tais ativistas e autoridades.
A culpa das mazelas trazidas pelas facções não devem recair tão somente sobre os ombros dos patifes que, conscientemente, escolheram os revolucionários para governar, pois há uma parcela daqueles que preferiram a omissão e deixaram seus pares entregues às víboras vermelhas.
Imaginemos o número de indivíduos que acreditaram que seria mais fácil deixar que outros tomassem as rédeas e hoje assistem o México tomado pelos cartéis, bem como, o Brasil fora de uma iniciativa continental encabeçada pelo país mais rico e poderoso do mundo que pretende combater as facções que aterrorizam seu povo, não há como negar que os omissos também carregam parte da culpa e negá-la é um ato de covardia.
Se, no maior colégio eleitoral do país, um candidato ao Senado Federal desiste de sua campanha para evitar que políticos alinhados à um sistema pútrido alcancem as vagas, em outros cenários há quem prefira colocar em risco uma das mais importantes disputas para, em nome de um falso bairrismo, subtrair votos que podem dar a chance ao que há de pior na política brasileira, some-se a isso o fato de defenderem uma candidatura com poucas chances de ser eleito e de concluir o mandato. Mas há ainda um outro cenário dantesco no qual um aspirante ao Senado se mantém na disputa, mesmo ciente que tem um rebanho de eleitores fiéis e, pouquíssimas chances reais de vitória, todavia, sua candidatura canibaliza votos daqueles que, realmente, podem impedir que um candidato que tem clara posição revolucionária e que, recentemente, após uma ação policial em seu reduto eleitoral, não procurou dar assistência aos familiares dos policiais mortos ou feridos, mas demonstrou preocupação com possíveis abusos contra membros da mesma facção que seu partido político se recusa a rotular como terrorista.
Urge nos perguntarmos se é ingenuidade ou má-fé do candidato, posto que, se ele conspira para que a corrida põe uma vaga ao Senado seja vendida por que parece ter complacência com o crime e vilipendiou a fé de seus seguidores no último Carnaval, seria ele um farsante ou apenas um irresponsável ganancioso. Cabe lembrar que outrora o mesmo político ocupara posição no primeiro escalão do Governo sob a batuta do Foro de São Paulo, portanto, tal temor seria justificável.
Aos que outrora acusavam, com razão, o aqueles que figuram no espectro político da esquerda de artífices de uma revolução socialista, deveria ser inadmissível a opção pela omissão, tendo em mente que, há, no campo de batalha, um grupo que pretende, deliberadamente, expandir a desgraça, através da miséria e da deturpação da moral, com o único fim de alcançar uma posição de poder que os aquebrantados serão incapazes de retirá-lo.
Em síntese, podemos admitir que todo aquele que prega a isenção como forma de não ser responsabilizado pela ascensão e manutenção do mal, mesmo sabendo quem são os membros declarados da horda vermelha, não está na condição de vítima ou mero espectador, mas de, na melhor das hipóteses, partícipe.
Há quem invoque a ineficiência dos meio para impedir que o mal avance, contudo, tal alegação não afasta o dever de tentar, pois, se tal argumento fosse verdadeiro, todo martírio seria tolice. Na prática, tentar o melhor possível, mesmo diante de uma derrota iminente é não se curvar à tirania, ao passo que, tentar fugir da culpa o é.
Inobstante a busca pelo mundo ou líder ideal, não há como negar que o plano material está repleto de injustiças e provações, bem como, que homens são, por essência falhos e ninguém deveria considerar, sequer a si como perfeito, de tal maneira que, escolher o chamado “menos pior”, é exatamente a escolha do melhor, por mais que se tente distorcer tal ideia.
Transferir a gerência a outrem nada mais é que tentar se furtar da responsabilidade diante do erro, esperando que um líder que assumiu o poder pela hereditariedade ou por pertencer a um conselho de indivíduos superiores seria a solução para toda a sociedade, abdicando da participação em nome da isenção de culpa.
Como uma monarquia se torna uma tirania diante de um líder corrompido e uma aristocracia transmuta sua natureza em uma oligarquia quando os filósofo se corrompem pelo poder, a democracia reflete a sociedade que governa, sendo tão decadente quanto a soma das vicissitudes de seus membros.
A democracia é, talvez, o sistema mais justo, entretanto, é também o mais cruel, posto que, encarar sua face pútrida nos faz olhar para o espelho de nossa sociedade, não nos permitindo imputar ao rei tirano ou ao grupo corrupto os males que nos cercam sem admitir que os líderes democraticamente eleitos, lá estão, porque, em algum momento falhamos como sociedade e não por terem se corrompido sem a nossa participação.
Em uma sociedade que a maioria foi reduzida a uma massa bestializada não poderia eleger uma classe política que não a refletisse, por outro lado, aquilo que hoje chamamos de juristocracia, nada mais é que uma oligarquia de toga que, se considerando “editores da nação”, portanto, mais aptos a decidir pelo povo que o próprio povo, se enxerga como uma aristocracia. É evidente que um tirano jamais se assumiria como tal.
Por fim, ainda que o processo eleitoral seja dúbio e que o líder ideal não esteja no seu horizonte, a omissão é optar pelo mal maior à medida que permite que outros o elevem ao poder, razão pela qual, aos que se furtam de lutar, será impossível viver sem culpa.
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Artigo publicado na Revista Conhecimento & Cidadania Vol. V N.º 70 edição de Setembro de 2026 – ISSN 2764-3867